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de costas pr'ó mar

Mariana Sofia

Qui | 30.04.20

Review // Ensaio sobre a Cegueira

~ com 5 ⭐︎

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Sobre o último livro que ocupou a minha mesa de cabeceira, esteve demasiado tempo na estante. Apenas porque ainda não tinha chegado o momento certo para o ler. E nem de propósito que o devorei em poucos dias, naquela que foi mais uma semana de isolamento social.

 

Ensaio sobre a Cegueira, um clássico da literatura portuguesa, é um retrato da condição e espírito humano, onde sobressai o melhor e o pior daquilo que é ser-se inteiramente humano. Um retrato das contradições da espécie humana, perante uma situação-limite, onde o importante é sobrevier. Não interessa como. Até porque o inimigo é invisível. Um retrato curioso. Porque também hoje, o nosso inimigo é invisível. E será sempre menos um dia, sem sabermos quantos dias faltam. Porque “mesmo nos males piores é possível achar-se uma porção de bem suficiente para que os levemos, aos ditos males, com paciência”.

 

Sobre a narrativa, um homem fica cego, sem qualquer razão física ou psicológica que o justifique, quando está parado num semáforo vermelho. A partir desse momento, e sem qualquer aviso prévio, a cegueira alastra por contágio. Uma sociedade inteira vê-se, rapidamente, fustigada pela epidemia da cegueira coletiva. Ou, como os entendidos em política lhe chamaram, a epidemia do mal-branco. Não sabemos se foi ontem. Se é hoje. Ou se será amanhã. E numa sociedade de cegos, o nome de cada um é o que menos importa. Aquilo que os define é a sua história, a passada e a presente.

Nunca se pode saber de antemão de que são capazes as pessoas, é preciso esperar, dar tempo ao tempo, o tempo é que manda, o tempo é o parceiro que está a jogar do outro lado da mesa, e tem na mão todas as cartas do baralho, a nós compete-nos inventar os encartes com a vida, a nossa.”

beijinhos **